Rafael Barrett — O Rio Invisível


Você se lembra?, quando éramos pequenos, bem pequenos; quando os mais velhos se agachavam penosamente para nos beijar, e nós nos inclinávamos na ponta dos pés para ver o que acontecia em cima das mesas, quão grande era o espaço? A sala de jantar, a sala de estar, o quarto, eram vastos parques infantis ou campos de batalha, onde se escalavam as cadeiras, se exploravam recantos, e onde se podia esconder. De dia, os longos corredores eram uma pista de corrida, e de noite túneis intermináveis, cheios de perigos. A casa era um mundo. O infinito começava na rua. Uma vez que cruzávamos o umbral, mergulhávamos no caos sem fundo e sem fim, onde era uma loucura aventurar-se sozinho. Um passeio era uma expedição distante e maravilhosa, na qual não era sensato confiarmos em outros guias que não nossos pais. No caminho de volta, quando divisávamos a silhueta familiar de nossa casa, sentíamos algo do que Colombo deve ter sentido em seu primeiro regresso, quando reconheceu no horizonte pálido as montanhas de sua pátria.

Crescemos, e o espaço diminuiu de tamanho, como se nosso corpo o devorasse. Aprendemos geodésia e astronomia, e o mundo continuou a encolher, devorado por nossa inteligência. As distâncias siderais são enormes, mas as medimos e nos parecem razoáveis; o infinito começa por detrás das últimas nebulosas, mas não é um infinito vivo, rumoroso, prenhe de gestos como a cidade, cujas ondas batem à nossa porta, mas o poço negro, inerte do qual o telescópio não desenha nada. O Universo, despojado do mistério que o ampliou e aprofundou nossa terna fantasia, foi reduzido a uma figura geométrica, isolada no meio da lousa celestial.

O tempo também muda com a idade, e isto é mais sério. Viver em um espaço mais ou menos amplo não nos afeta tão intimamente, não afeta nossa consciência tanto quanto viver mais ou menos apressadamente. Vivemos cada vez mais depressa. Não busque a impressão do eterno nas conjecturas do pré-histórico, nem nos abismos da geologia, mas sim na fita desbotada de suas remotas memórias. O que são as eras do planeta se comparadas a imensidão de séculos que precisamos para separar nosso ser da realidade externa, para distinguir os contornos fundamentais do nosso espírito, para colocar nele uma sensação definida, uma ideia, para compreender a palavra dos outros e pronunciar a nossa própria, para atar um por um os fios sutis que nos prendem às coisas? Os sábios dirão que após três ou quatro anos, uma criança conseguirá tudo isso. Mas esta avaliação é feita a partir do exterior. Por dentro, a formação dos sentidos e da razão do homem exige uma eternidade. Regresse em sua memória, escave o leito do seu passado; você nunca encontrará seu limite, nunca exclamará: "Eu comecei aqui". Sempre a avenida escura se estenderá até a planície, juntando e desvanecendo traços e cores até um ponto inacessível. Haverá sempre uma região vaga e crescente a ser sondada. Você alcançará as trevas, mas não o começo do seu ser. Todos nós carregamos dentro de nós uma história tão antiga e venerável quanto a da própria criação.

Constituído o essencial da alma, fixados os principais traços do caráter e da fisionomia, o tempo começa a acelerar. Enquanto ainda jovens, as horas duram; um dia de festa, um almoço no campo, representam tesouros quase inesgotáveis de alegria; um mês é um período de tempo indefinido; um ano é metade da existência. Mais tarde, na adolescência, o tempo se encolhe. Nosso olhar chega mais longe; calculamos sem vertigens a data em que o curso terminará e até mesmo a carreira empreendida. Concebemos com exatidão eventos que antes considerávamos praticamente impossíveis, a morte de nossos pais, nossa própria morte. Vemos o envelhecer. Envelhecemos. O tempo se apressa. O ritmo de nossa vida abranda, e o tempo corre e submerge e nos desmorona. Quando nosso organismo, em seu período inicial rumo às conquistas primordiais da espécie, se transformava com frenesi criativo, nós possuíamos o tempo, ou seja, o ritmo geral de tudo, nos unimos a ele, nos enroscamos em torno dele e o acompanhamos, e ele era para nós esplendidamente interminável. Mas estagnados em nosso desenvolvimento, imóveis em nossa efígie, o tempo nos deixa para trás e se afasta rindo, e passa, insensatamente mais e mais rápido. Apenas vivemos; somos um bloco de hábitos inveterados, plantados em um ângulo do caminho para marcar a distância que os outros percorrem. Em nós se lê a horrível velocidade do tempo.

O tempo voa, nos arranha a carne, nos espreme, nos destroça ao tentar nos arrebatar em sua fuga veloz. Nem sequer nos entediamos lentamente. Até a dor, até o desespero, logo chegam ao fim. O que são os anos para o ancião? Faltam minutos. As águas do rio invisível fluem tão velozes que descobrimos finalmente que algo as chama, as sorve. O leito do rio se estreita, as águas não fluem, caem. O tempo se precipita, despenca. Uma linha corta a corrente. É a cascata final: no limiar, o tempo enlouquecido agarra nossos miseráveis restos, e com eles se lança no abismo de onde nada volta.

[trad. Victor H. Azevedo]

Entre bisontes, losangos e asas abertas — sobre a capa de Nesgas de Terra Vermelha

Em julho de 2023, lançamos “Nesgas de Terra Vermelha”, uma seleta de poemas colhidos do livro "Red Earth – poems of New Mexico" [“Terra Vermelha – poemas do Novo México”], da poeta estadunidense Alice Corbin Henderson, originalmente publicado em 1920. Ficamos muito contentes com essa publicação, que vínhamos traduzindo e polindo há quase três anos.Ver esse projeto finalmente coexistindo conosco no mundo é algo inestimável. Contudo, hoje não venho falar sobre processos tradutórios ou algo do gênero: venho dividir com vocês um pouco dos bastidores do processo de criação da capa.

Tudo começa em 2020, com a descoberta do nome da Alice Corbin Henderson. Instigado, quase que imediatamente comecei a pesquisar sobre sua figura, sua obra e a traduzi-la. Enquanto este processo desenrolava-se, eu ia maquinando em segundo plano quais seriam os aspectos ideais para a capa desse projeto. Não me agradava a ideia de fazer algo que fosse fruto de uma leitura impressionista do livro; não queríamos algo óbvio, que revelasse improviso no processo. A ideia era fazer uma pesquisa sobre a trajetória da poeta, buscar quais percursos ela havia trilhado para chegar àqueles poemas, que temas e localidades habitavam o livro, para aí, a partir disso, experimentar imagens.

Comecei indo pelos rumos do Novo México, seguindo a pista dada pelo subtítulo. Muitos dos artistas de lá, disponíveis nessas minhas primeiras consultas, i.é., artistas já em domínio público, que teceram algum diálogo com a geografia abordada por Alice nesse livro, faziam paisagismos sem cor, retratos demasiadamente enfeitados, esboços de pássaros empalhados, etc. Então vi que o esposo de Alice, William Penhallow Henderson, era pintor. Pensei até em usar alguma de suas artes, mas findou que o estilo de pintura de William era um tanto tradicional, além de que não encontrei muitas pinturas suas que casassem com as temáticas do livro. Dessa busca geral, os trabalhos que mais me chamaram a atenção foram pinturas em que figuram alguns bisontes de olhos serenos, abraçados por uma paisagem erma, mas que passavam a impressão de tratarem-se de figurantes de um western, e os poemas de Alice não se debruçam sobre este tema. Neles, há mais uma sensação de aprendizado com os habitantes indígenas e falantes de língua espanhola, do que a sensação enervante e violenta de um bangue-bangue.



Após esse primeiro giro, decidi que seria mais interessante me debruçar na arte indígena da região, ao menos no que conseguia encontrar disponível on-line, visto que os poemas que mais achei interessantes foram as traduções de cantigas indígenas, como este:

Ouvindo O som de passos Na pradaria — Seriam homens ou deuses Que surgem do silêncio?

Ia pesquisando pelos povos citados nos versos. Pueblos de Tesuque, San Ildefonso, Bonito, etc. Dos achados, pensei em usar alguma das espetaculares pinturas de Julián Martínez ou de Awa Tsireh, mas, como na Munganga trabalhamos com limitação de cor em nossas publicações, tivemos que abandonar a ideia. Então pensei nos padrões das tapeçarias e cerâmicas. Algo menos figurativo, e mais subjetivo. Não queria algo completamente abstrato, e acho que ir pelos padrões impressos nos tapetes e nos artefatos cerâmicos foi uma ideia acertadíssima.



A partir da constituição deste repertório, comecei a rabiscar alguns padrões, experimentando com a constância do traço, a repetição das formas. Um estudo em lápis grafite me agradou, e o escaneei. Queria a partir dele começar a fazer algo mais sólido, já pensando em, com sorte, iniciar a capa final.

Acabou que esse estudo a lápis não ficou com a exatidão que eu esperava, por mais que eu tenha usado de marcações à régua. Mas nem tudo desse esboço se perdeu: recorri então ao Illustrator e ao Photoshop para fazer uma versão melhorada. Aproveitei o ensejo e fiz outros esboços, pensando em visualizar melhor as prováveis opções de capa — fiz uma de aspecto mais “pedregoso”, losangular; e outra mais sinuosa, brincando com a ideia de ventania. No final, depois de ponderar sobre as opções feitas até ali, optamos pela primeira ideia — mas agora numa versão mais refinada, feita digitalmente.




Uma curiosidade é que a inspiração original foi um fragmento de pintura de um vaso antiquíssimo do Pueblo Bonito, feito por volta do século XI. Quando a publicação é aberta – com a capa e contracapa ficando em 180º –, a impressão que temos é a de estarmos vendo asas abertas, prontas para o voo (ao menos foi o que tentei fazer, para além de ser o que também imagino/visualizo), um detalhe bacana no final das contas.


Acho que é isso. Espero que vocês curtam o texto falando um tanto do processo. Curto demais consumir esse tipo de conteúdo, em que os comentários são sobre algum trabalho concluído ou um work in progress.



— Victor H. Azevedo


Sobre editores e poetas — Alice Corbin Henderson



SOBRE EDITORES E POETAS*

Todos os jovens poetas odeiam editores. E eles estão certos. Quando um poeta é tolerante com um editor —  ou um editor com um poeta —  isso não é um sinal saudável, pois significa que ambos deixaram de estar atentos.

Um jovem poeta cheio de ira é o melhor amigo do editor. Ele pode ser arrogante, insolente, mas é capaz de ser honesto. Quando o editor sugere cortes ou mudanças em seu poema, o poeta se enraivece e fala ao editor o que pensa sobre ele. Isso induz no editor um espírito conveniente de humildade (e não estou falando dos editores que insultam de modo tão suave e impermeável como um estofado de sofá!). Isso também alivia o poeta que, quando se acalma um pouco, começa a se perguntar se seu poema não pode ser aprimorado com uma sugestão do editor ou com uma nova ideia que ele próprio teve. Ambos, portanto, continuam com esse fundamento puramente humano de dar e receber, sendo, de modo saudável, antagônicos e sociáveis.

Mas entre o poeta estabelecido, cuja reputação está mais do que consagrada — embalsamada —, e o editor que não tem mais plasticidade do que um poste de amarrar cavalos não há qualquer atrito. Eles são mutuamente tolerantes um com o outro. Por que? A relação entre eles é simplesmente a de um produtor com um varejista de qualquer mercadoria razoavelmente básica, como açúcar, melaço, ou queijo verde.

Claro que é preciso ter habilidade para ser poeta! Mas e para ser ser um editor? Basta um par de tesouras, um lápis azul e um frasco de cola! Todo o poeta em mim odeia o editor. O editor em mim jura que sou uma poeta muito ruim; o poeta sabe que o editor é um tolo. E nenhum deles está completamente errado!




Alice Corbin Henderson foi uma escritora, poeta e editora estadunidense.

Nascida no ano de 1881, em St. Louis, no estado do Missouri, mudou-se para Chicago com três anos de idade, após a morte de sua mãe. Anos depois, seu pai casou-se novamente, e ela fora viver com ele no Kansas.

Foi editora-assistente de Harriet Monroe, na renomada revista Poetry, entre 1912 e 1922. Junto desta, editou duas edições da antologia The New Poetry, em 1923 e 1932.

Em 1916, diagnosticada com tuberculose, Alice mudou-se com seu marido, o pintor William Penhallow Henderson, para o Novo México, em busca de tratamento. Durante esse período acabou interessando-se pela cultura dos povos originários americanos, tornando-se ativista dos seus direitos civis — sendo co-fundadora do museu House of Navajo Religion, atual Wheelwright Museum of the American Indian, e publicando os livros Red Earth - Poems of New Mexico (Terra vermelha - poemas do Novo México**), em 1920, e The Turquoise Trail - an Anthology of New Mexico Poetry (A trilha turquesa - uma antologia da poesia do Novo México), em 1928.

Alice escrevia poemas tanto em verso livre, quanto em formas fixas. Publicou, além do já mencionado Red Earth..., os seguintes livros de poesia: The Linnet Songs (As canções do pintarroxo), em 1898, The Spinning Woman of the Sky (A mulher rodante do céu), em 1912, e The Sun Turns West (O sol vai para o Oeste), em 1933.
Alice Corbin Henderson faleceu em 1949, vítima de uma insuficiência cardíaca.

* — Texto traduzido por Victor H. Azevedo.
** — Para o próximo ano, a Munganga Edições pretende lançar o Terra vermelha - poemas do Novo México.