Crescemos, e o espaço diminuiu de tamanho, como se nosso corpo o devorasse. Aprendemos geodésia e astronomia, e o mundo continuou a encolher, devorado por nossa inteligência. As distâncias siderais são enormes, mas as medimos e nos parecem razoáveis; o infinito começa por detrás das últimas nebulosas, mas não é um infinito vivo, rumoroso, prenhe de gestos como a cidade, cujas ondas batem à nossa porta, mas o poço negro, inerte do qual o telescópio não desenha nada. O Universo, despojado do mistério que o ampliou e aprofundou nossa terna fantasia, foi reduzido a uma figura geométrica, isolada no meio da lousa celestial.
O tempo também muda com a idade, e isto é mais sério. Viver em um espaço mais ou menos amplo não nos afeta tão intimamente, não afeta nossa consciência tanto quanto viver mais ou menos apressadamente. Vivemos cada vez mais depressa. Não busque a impressão do eterno nas conjecturas do pré-histórico, nem nos abismos da geologia, mas sim na fita desbotada de suas remotas memórias. O que são as eras do planeta se comparadas a imensidão de séculos que precisamos para separar nosso ser da realidade externa, para distinguir os contornos fundamentais do nosso espírito, para colocar nele uma sensação definida, uma ideia, para compreender a palavra dos outros e pronunciar a nossa própria, para atar um por um os fios sutis que nos prendem às coisas? Os sábios dirão que após três ou quatro anos, uma criança conseguirá tudo isso. Mas esta avaliação é feita a partir do exterior. Por dentro, a formação dos sentidos e da razão do homem exige uma eternidade. Regresse em sua memória, escave o leito do seu passado; você nunca encontrará seu limite, nunca exclamará: "Eu comecei aqui". Sempre a avenida escura se estenderá até a planície, juntando e desvanecendo traços e cores até um ponto inacessível. Haverá sempre uma região vaga e crescente a ser sondada. Você alcançará as trevas, mas não o começo do seu ser. Todos nós carregamos dentro de nós uma história tão antiga e venerável quanto a da própria criação.
Constituído o essencial da alma, fixados os principais traços do caráter e da fisionomia, o tempo começa a acelerar. Enquanto ainda jovens, as horas duram; um dia de festa, um almoço no campo, representam tesouros quase inesgotáveis de alegria; um mês é um período de tempo indefinido; um ano é metade da existência. Mais tarde, na adolescência, o tempo se encolhe. Nosso olhar chega mais longe; calculamos sem vertigens a data em que o curso terminará e até mesmo a carreira empreendida. Concebemos com exatidão eventos que antes considerávamos praticamente impossíveis, a morte de nossos pais, nossa própria morte. Vemos o envelhecer. Envelhecemos. O tempo se apressa. O ritmo de nossa vida abranda, e o tempo corre e submerge e nos desmorona. Quando nosso organismo, em seu período inicial rumo às conquistas primordiais da espécie, se transformava com frenesi criativo, nós possuíamos o tempo, ou seja, o ritmo geral de tudo, nos unimos a ele, nos enroscamos em torno dele e o acompanhamos, e ele era para nós esplendidamente interminável. Mas estagnados em nosso desenvolvimento, imóveis em nossa efígie, o tempo nos deixa para trás e se afasta rindo, e passa, insensatamente mais e mais rápido. Apenas vivemos; somos um bloco de hábitos inveterados, plantados em um ângulo do caminho para marcar a distância que os outros percorrem. Em nós se lê a horrível velocidade do tempo.
O tempo voa, nos arranha a carne, nos espreme, nos destroça ao tentar nos arrebatar em sua fuga veloz. Nem sequer nos entediamos lentamente. Até a dor, até o desespero, logo chegam ao fim. O que são os anos para o ancião? Faltam minutos. As águas do rio invisível fluem tão velozes que descobrimos finalmente que algo as chama, as sorve. O leito do rio se estreita, as águas não fluem, caem. O tempo se precipita, despenca. Uma linha corta a corrente. É a cascata final: no limiar, o tempo enlouquecido agarra nossos miseráveis restos, e com eles se lança no abismo de onde nada volta.
[trad. Victor H. Azevedo]